Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Os monges trapistas do Brasil não fazem cerveja artesanal. Nem pretendem

Orações ocupam a maior parte dos dias dos monges. Foto: Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo


Os monges do mosteiro trapista de Nossa Senhora do Novo Mundo despertam às 2h45, antes de o sol despontar. Quinze minutos depois, já estão se dedicando ao "ofício divino", que lhes consumirá grande parte do dia. Vigília, orações, meditação, leituras, consomem as três primeiras horas, com uma pausa para o café da manhã. Às 6h, a missa e as ações de graças ocupam-lhes mais duas horas.

Estão prontos, espiritualmente, para um expediente diário de mais de quatro horas de trabalho. Às 12h30, pausa para o almoço, e os monges têm algum tempo livre, até que voltem ao trabalho ou se dediquem aos estudos teológicos, com aulas, reuniões, conferências. Depois do jantar, que começa por volta das 18h, mais alguns minutos de tempo livre.

Congregação reunida: origem em Genessee, Nova York
Foto: Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo
Às 19h30, depois de mais um pouco de dedicação ao "ofício divino", se recolhem aos seus aposentos, para repousar. O dia seguinte, afinal, não será muito diferente. A rotina é dura. Rezar e trabalhar. "Ora et labora", é o lema de São Bento.

O mosteiro de Nossa Senhora do Novo Mundo fica na pequena Campo do Tenente (PR). Começou com quatro monges vindos da Abadia Nossa Senhora de Genessee, em Nova York (EUA), que chegaram ao país em 1977 e se instalaram inicialmente, por seis anos, no município da Lapa (PR). Hoje, são 21.

Já o mosteiro Nossa Senhora de Boa Vista, em Rio Negrinho (SC), foi fundado em 2010 por oito monjas -  uma italiana, quatro chilenas e três brasileiras - que antes estavam instaladas em Quilvo, no Chile.

Os bebedores que sonham com uma autêntica cerveja trapista "brazuca", porém, vão se decepcionar. As probabilidades de algo assim acontecer parecem baixas. Os trapistas do Brasil não produzem cerveja e não estão muito interessados no assunto. Em entrevista por e-mail ao blog A Volta ao Mundo em 700 Cervejas, o irmão Gabriel Vecchi, do Nossa Senhora do Novo Mundo, diz que ambos os mosteiros seguem a produção do que já estavam acostumados em suas comunidades de origem - nenhuma delas cervejeira:

- Nenhuma das nossas comunidades trabalha com cerveja. Não há uma razão específica para a não-produção da bebida por parte dos dois mosteiros no Brasil. No momento em que uma comunidade é fundada, ela deve definir quais serão seus meios de subsistência. Isto geralmente é influenciado pelos meios já desenvolvidos pela comunidade fundadora. É mais seguro continuar num ramo conhecido do que lançar-se numa atividade totalmente nova.

E o que produzem, então?

Lavoura é uma das principais atividades do mosteiro
Foto: Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo
- Nós temos uma lavoura e também produzimos bolos, mel e biscoitos; as monjas, por sua vez, trabalham com chocolates e cartões - conta Irmão Gabriel.

O religioso demonstrou estar bem a par da reputação dos produtos trapistas:

- Como deve saber, vivemos sob a Regra de São Bento, cujo lema de "ora et labora" impregna todas as nossas atividades e é o verdadeiro segredo da qualidade e do zelo com os quais nossos produtos são desenvolvidos. Cada comunidade de nossa Ordem é autônoma e isto significa que ela deve buscar seus próprios meios de subsistência. Algumas se dedicam à produção de cervejas, outras à produção de queijos, chocolates, geleias, pães, bolos, mel, etc. Há muita diversidade no que concerne às atividades desenvolvidas - explica ele.

Despediu-se apontando - corretamente - a Bélgica e a Holanda como os principais locais de produção de cervejas entre os trapistas, e recomendando que entrássemos em contato com a abadia de Scourmont, responsável pela produção das Chimay.

ATUALIZAÇÃO ÀS 12h DE 11/9/13:

Logo após a publicação do post nas redes sociais, fomos informados por um leitor que dois monges que seriam trapistas, instalados na Serra da Cantareira, fizeram curso de produção artesanal na Sinnatrah Cervejaria Escola, e têm comprado insumos regularmente. Claro que de dois monges fazendo cervejas na panela para uma cerveja trapista com produção em alguma escala o devido selo de autenticação vai uma distância grande. Mas já é um alento. Há esperanças.

Regra de São Bento prevê hospedaria para visitantes e peregrinos. Foto: Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo


Primeiro mosteiro foi instalado em SP e durou 27 anos

Após uma aparição esporádica durante a ocupação francesa no Brasil Colônia, os trapistas se instalaram no Brasil já no começo do século 20. Vieram do mosteiro Sept Fons, na França, em 1903 e ficaram primeiro em um terreno em Cananeia, no litoral de São Paulo. Em vez da praia, preferiram as proximidades do Rio Paraíba do Sul e de um ribeirão no Tremembé, em uma antiga fazenda de café chamada Palmeiras.

O Mosteiro Bem Aventurada Maria, também chamado Maris Stela, ou Maristela, foi fundado no dia 13 de setembro de 1904, contou a repórter Ana Lúcia Viana no artigo Os trapistas em Tremembé (1904-1931) na edição número 281 do semanário Contato, em 2006. Além de recuperar a lavoura cafeeira, eles se dedicaram a cultivar cana de açúcar, juta, a criar gado holandês e a experimentar o plantio de arroz.

Apesar das diversas benfeitorias que deixaram, incluindo uma barragem e uma pequena usina elétrica, os trapistas não conseguiram arrebanhar os fiéis de que tanto necessitavam para manter o mosteiro. Discretamente, começaram a retornar para a França, em setembro de 1927. Os últimos partiram em março de 1931. Segundo o site da Ordem Cisterciense da Estrita Observância (OCSO, na sigla em francês), eles foram para a abadia de Notre Dame de Orval. Ainda segundo Ana Lúcia Viana, somente um, o irmão Leonard Van Hier, permaneceu; ele morreu em 1948.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

EXCLUSIVO - Em 100 anos, produção brasileira de cerveja cresceu 21.713,55%

Nos últimos 100 anos, o volume de cerveja produzido no Brasil cresceu 21.713,55%, segundo dados compilados por A Volta ao Mundo em 700 Cervejas nos relatórios sobre o mercado de lúpulo do tradicional grupo alemão Bart Haas, publicados anualmente desde 1909. Saltou de 59 milhões de litros produzidos em 1910 para 12,87 bilhões em 2010, de acordo com o documento mais recente disponível, divulgado no ano passado.


A cifra é tão espantosa quanto parece. Quando se compara os dados do Brasil aos dos países hoje considerados “nações cervejeiras”, a singularidade do caso brasileiro fica cristalina. Entre os demais, as variações são bem menos significativas, por motivos diversos que não cabem, obviamente, todos neste texto: Estados Unidos214,5%; Alemanha, 37,2%; Grã-Bretanha, -23,4%; Bélgica, 1% e Argentina, 1520,3%.


Como ficaria cansativo demais analisar ano a ano o século passado (fica para análises futuras), selecionamos como marcos o primeiro ano de cada década, para fazermos alguns breves comentários tentando contextualizar os números – que nem de longe terão a capacidade de esgotar as possibilidades de explicações para as variações nos números.

As pesquisas do Barth Haas foram interrompidas pelas duas guerras mundiais na primeira metade do século 20. A fim de evitar um hiato nesta análise na série histórica, por aproximação, consideramos o dado de 1938 para representar o número referente ao ano de 1940, e possibilitar os cálculos subsequentes quanto à evolução do quadro.

Ao fim da primeira década do século 20, com míseros 59 milhões de litros e algumas poucas cervejarias artesanais instaladas principalmente nas colônias germânicas no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o Brasil tinha exatamente a metade da produção dos hermanos platenses (argentinos). Já nesta época, EUA, Alemanha, Grã-Bretanha e Bélgica mediam suas produções em bilhões de litros, não mais em milhões – 7.4, 6.9, 5.8 bilhões e 1.8 bilhão, respectivamente.


A Fábrica de Gelo e Cervejaria Antarctica Paulista e a carioca Manufactura de Cerveja Brahma - Villiger & Cia já somavam 20 anos no ramo, mas dificilmente alguém imaginava que ambas se tornariam as principais potências do mercado. Só superaríamos os hermanos na década de 1950, com 400 milhões de litros contra 380 milhões, depois de o país ter passado por sua primeira fase de industrialização intensa, parte dela sob a ditadura do Estado Novo.

Enquanto isso, os países europeus tentavam se recuperar da destruição provocada pela Segunda Guerra Mundial, que afetou severamente a capacidade de produção tanto por escassez de insumos quanto de instalações industriais fisicamente íntegras. Menos afetados em seu território, e recuperado da proibição nacional do consumo de álcool (Lei Seca), a produção cervejeira dos Estados Unidos decolou, passando de 6,3 bilhões de litros para 10,4 bilhões.

O Brasil vira “gente grande” em termos de volume de produção cervejeira em 1970, quando ultrapassa a barreira de 1 bilhão de litros e praticamente empata com a Bélgica. Os dez anos seguintes trariam o maior crescimento registrado no país por esta série histórica: 201.17%, levando o país aos 3.45 bilhões de litros em 1980.


 A década de 1970 foi marcada pela escalada de violência por parte da ditadura militar e dos grupos guerrilheiros, e também pelo chamado "milagre econômico", período de crescimento intenso da economia que é atribuído por muitos a supostos benefícios de um regime autoritário. Uma hipótese a ser investigada é que os principais players da indústria cervejeira tenham sido favorecidos pelas políticas desenvolvimentistas da época, como acesso facilitado a crédito para investimentos e isenções fiscais.

Após a redemocratização, mesmo sobre uma base ampla, nos anos 1980 e 1990, enquanto a revolução artesanal começava a se desenhar, a produção continuou subindo a níveis impressionantes, pulando para 5,8 bilhões de litros e depois para 8,2 bilhões. As taxas de crescimento foram de 68% e 42%, respectivamente. Na primeira década da união das duas maiores cervejarias do país – as já mencionadas Antarctica e Brahma, que formaram a Ambev – a produção retomou um ritmo de crescimento impressionante: 56%.

sábado, 24 de novembro de 2012

Cerveja boa é cerveja livre - Abaixo a ditadura da Reinheitsgebot


Comecei a conhecer boas cervejas, como acontece com muitos, pelas cervejas alemãs de trigo. Mais especificamente, as bávaras. Na Alemanha, onde "região" quer dizer "sabor (de cerveja) diferente", essa distinção é particularmente importante.

Além das lagers de Munique, etc, as bávaras, grosso modo, são representadas hoje em dia pelas weizenbiers, que têm como principal característica o aroma frutado que lembra banana e cravo – efeito produzido não pela adição destes ingredientes, mas pelas leveduras utilizadas na bebida.

Foi em cervejas brasileiras que vi pela primeira vez menções à Reinheitsgebot, "Lei de Pureza Alemã", ou ainda "Exigência de Pureza". Estampadas nos rótulos com inegável orgulho, que muitas mantém hoje em dia, quando já devíamos ter superado esse estágio. Mas é preciso separar a obediência a esta regra arcaica de qualquer consideração sobre a "qualidade" da cerveja.

Confundir as coisas não é crime, mas distorcê-las talvez devesse ser. Modernamente, a Reinheitsgebot é marketeada a torto e a direito como "tradição", com um ar de superioridade, usada como gancho para cativar os clientes. Virou fetiche. Só que não é por ser tradição que é necessariamente benéfica.

 TRADIÇÃO NÃO É QUALIDADE

E se, em vez do lúpulo, o cervejeiro alemão quiser temperar e conservar a cerveja com uma mistura de ervas, o gruit, como se fazia antes de 1516? Não seria ainda mais tradicional, e, portanto, de qualidade ainda maior?

Se você respondeu mentalmente "não", concordamos na realidade básica da coisa. Até porque, convenhamos, mesmo os mais refinados métodos de higiene do século 16 seriam repugnantes hoje em dia.

Se vamos ser tradicionalistas mesmo, adotemos então as lambic como cervejas favoritas, já que usam o método tradicional de sequer selecionar a levedura que vai ser usada para fermentar o mosto. O que cair é presente de Deus.

A família real da Baviera manteve, por séculos, monopólio da produção de cervejas de trigo. Isso não diz nada? Se só as cervejas que seguiam a regra dos três elementos tivessem qualidade, por que a realeza teria predileção pelas "inferiores"? A Reinheitsgebot ganhou nos anos 1990 essa alcunha, "exigência de pureza". Isso, depois de ter sido considerada pela justiça da União Europeia como prejudicial à livre concorrência.

A livre concorrência, me parece, é coisa que mesmo os cervejeiros artesanais, capitalistas por mais que sejam vistos sempre com o manto sagrado da ideologia, deveriam defender. Nem que da boca pra fora.

DOS SEIS ARTIGOS, CINCO SÃO SOBRE OS PREÇOS

O importante é que o decreto do duque Guilherme IV não traz considerações sobre a motivação do ato em seu preâmbulo, muito menos justificativas como a de que se trata de uma medida visando ao benefício do povo. Natural. Onde já se viu, afinal, um monarca ter que se explicar aos súditos?

No texto em si, não há elemento que permita a interpretação positiva que lhe atribuem. Resta a análise fria dos seis "artigos".

 Os quatro primeiros se ocupam dos preços máximos que se podia cobrar por cada tipo e quantidade de cerveja. O último volta a falar de preços. E mostra preocupação com escassez da cevada, dando a entender que o governo desapropriaria estoques privados que julgasse necessários.

Nur Geschäfte. Just business. Apenas negócios.

É no penúltimo artigo que os defensores da visão benevolente sobre essa tal "exigência de pureza" se fiam. Curiosamente, o texto não faz referência a esse conceito de pureza nem nada minimamente semelhante. Afirma que "deseja enfatizar" (indicando que isso já devia ter sido alvo de legislação) que os ingredientes "no futuro, em todas as cidades, nos mercados e no país na fabricação de cerveja eram devem ser malte, lúpulo e água".

A levedura, como todo mundo que leu um pouquinho a respeito já está careca de saber, só foi descoberta no século 19, foi adicionada posteriormente ao texto, etc etc... E estabelece ainda que a punição para quem fizer algo diferente é o confisco da mercadoria, "sem falha". Ou seja, não aplicava punição severa a quem transgredisse.

Nada nela ecoa, nem de longe, uma preocupação tão fundamental com os reles plebeus bebedores.

O texto, curiosamente, não menciona qual seria o fim da cerveja feita fora dos padrões apreendida. Pode-se apenas especular.

UMA LUZ NO FUNDO DA CALDEIRA DE MOSTO

Estabelecido que não se trata de qualidade, resta a questão filosófica. A Reinheitsgebot não faz muito mais do que limitar a criatividade dos cervejeiros. De condicioná-los a repetir que o fato de estarem usando os tais ingredientes quase místicos confira "qualidade", "pureza" à cerveja.

As meras combinações entre esses quatro elementos são capazes, sem dúvida, de gerar uma gama enorme de aromas e sabores. E daí? Por que vestir a camisa de força? O cervejeiro deve se sentir culpado se ficar com vontade de adicionar nozes e passas à sua cerveja escura? Deve se autoflagelar?

Felizmente, já estamos vendo no Brasil uma bela "contra-cultura cervejeira", em busca de experimentações e inovações. Isso se manifesta tanto nas artesanais de médio e pequeno porte, com seus lançamentos sendo reconhecidos no exterior, como nos cervejeiros caseiros, com as amostras enviadas aos concursos que têm sido realizados em diversos estados.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

'Quero provar cervejas com gosto de Brasil' - ENTREVISTA EXCLUSIVA COM GARRETT OLIVER



Em viagem a Nova York no meio deste ano, encontrei o mestre cervejeiro da Brooklyn Brewery, Garrett Oliver, por acaso, bar Blind Tiger, no SoHo. Coincidentemente, no dia em que fui levado lá por meu beer-cicerone novaiorquino - um executivo de médio escalão de um banco de investimentos com sede no distrito financeiro da cidade - o bar estava recebendo um evento de degustação de lançamentos e clássicos da Brooklyn, e ele estava lá para dizer algumas palavras alusivas. Amaciado por dois deliciosos exemplares da "reserva do mestre cervejeiro", o wheat wine The Companion e a specialty ale The Concoction, apresentei-me como jornalista e beer blogger brasileiro e pedi uma entrevista.

Ao ouvir que eu era do Brasil, ele abriu um sorriso e topou na hora. Pediu que eu entrasse em contato para vermos os detalhes. Quando o fiz, Garrett veio com uma sugestão muito melhor que a simples entrevista que eu havia sugerido: me convidou para uma visita à cervejaria guiada por ele, junto com um cervejeiro argentino também visitante, e para o jantar harmonizado que promoveria na mesma noite para os distribuidores das suas cervejas na região.

Visitando o depósito: paraíso cervejeiro em forma de pilhas de caixas

À mesa: Local 1, 2 e Sorachi
Foi um passeio de cerca de duas horas, acompanhado por uma taça de single-hop farmhouse saison Sorachi Ace, pelas duas unidades da Brooklyn. A cervejaria em si - na qual conheci o Monster, o gato que ficava aninhado na sala de controle dos tanques de mostura - e um depósito a poucos metros desta. término, ele serviu ainda uma mesa com as suas preferidas da Brooklyn - a strong golden ale Local 1, a belgian dark abbey ale Local 2, Sorachi Ace - e ainda tirou da torneira uma taça da "big" IPA Blast, com uma espuma inacreditavelmente densa e duradoura.
Explicando o rótulo da Local 2

Contou a história do logotipo, desenhado pelo craque Milton Glaser (criador do logo "I love NY"), e da série "Local", estes inspirados no antigo sistema de trens da cidade. No caminho para o jantar, dirigindo seu carro esporte, Garrett fez uma análise das mudanças em curso na área, que estava se recuperando de um longo período de degradação socioeconômica.

A equipe da cervejaria se virando na cozinha, sob o comando do mestre

Cinco deliciosos pratos foram preparados na nossa frente na cozinha-escola de uma loja de especialidades culinárias que abriga cursos de culinária e zitologia. O cardápio incluiu uma raridade que ele ainda estava experimentando, a Wild 1, uma versão da Local 1 fermentada com “Brett” (como ele chama, carinhosamente, as leveduras Brettanomyces bruxellensis). Na sequência, fizemos a entrevista degustando uma dosezinha de lambuja da maravilhosa imperial stout Black Ops – e ainda saí de lá presenteado pela assistente dele com uma garrafa que sobrou da comilança/bebelança.

Plateia formada por distribuidores da Brooklyn

Garrett contou que foi convidado por Juliano Mendes, então à frente da cervejaria Eisenbahn, para fazer o que ele faz de melhor, ou seja: atuar como Embaixador da Cultura Cervejeira. Usar sua eloquência e simpatia para ajudar as pessoas a perceberem a riqueza do mundo da cerveja. Em 2006, participou de alguns jantares ao lado da chef Roberta Sudbrack.
Preparando o molho carbonara

Para ele, a cultura cervejeira brasileira se desenvolveu a partir da base histórica germânica, absorvendo primeiro as influências britânicas (por extensão, as estadunidenses), e, posteriormente, as belgas, em um espaço de cerca de quatro anos. Nos EUA, compara, a chegada da influência belga demorou 20 anos. "De certas maneiras, vocês estão crescendo mais rápido", afirmou.

Garrett deixou escapar, também, seu desejo de ver os brasileiros trabalhando com ingredientes mais característicos do país, citando, inclusive, a cana-de-açúcar, que será usada na saison colaborativa que fará, em novembro, com a cervejaria mineira de alma belga Wäls - ele desconversou quando perguntei sobre planos para o Brasil.

Garrett cobra uma personalidade realmente brasileira nas cervejas. Destaca o exemplo da Colorado com a rapadura. "Eu quero provar algumas cervejas que tenham gosto de Brasil" disse. "minha pergunta para cervejeiros brasileiros é: eu posso ver suas habilidades e a cerveja tem um sabor agradável, agora ... quem é você? O que você tem para nos mostrar?", desafiou, completando em seguida, diplomaticamente como de costume: "Eles vão nos mostrar algumas coisas muito legais, tenho certeza disso".


Missão cumprida, jantar encerrado, Garrett fala de suas experiências como cervejeiro
ENTREVISTA EXCLUSIVA
GARRETT OLIVER // MESTRE CERVEJEIRO DA BROOKLYN BREWERY


Como você vê o que está acontecendo no Brasil?

Bem, o Brasil me fascina, porque ... A primeira vez que fui ao Brasil foi há seis ou sete anos. Conheci a família Mendes, que comandava a cervejaria Eisenbahn. Eles vieram a mim e disseram: “Garret, nós estamos tocando uma cervejaria nova, precisamos de alguém para falar sobre cerveja, comida, a vida, e tudo mais, você pode vir para o Brasil e fazer alguns jantares conosco?”

Vocês promoveram jantares com a chef Roberta Sudbrack, em 2006.

Era um restaurante maravilhoso, sério... tantos lugares maravilhosos, de uma cidade a outra. Então, fui para a fazenda com a família, fui a Bombinhas, onde ficávamos na praia. Eles venderam a cervejaria, mas acho que os veremos novamente no mercado cervejeiro. Agora, eles são meus amigos, e visito o Brasil sempre. Na maioria das vezes, não para fazer negócios, mas só para me divertir. Mas é sempre bom voltar. E eu fiquei fascinado em ver a historia cervejeira que o Brasil tem. Porque eu não sabia, quando fui a primeira vez, que o Brasil tinha uma grande influência germânica na sua história, que gerou uma grande cultura cervejeira.

O que está acontecendo no Brasil agora é o que aconteceu nos EUA no fim dos anos 70?

Talvez, para nós, meados dos anos 90. E, em certos aspectos, vocês estão crescendo mais rápido. Vocês começaram com coisas vindas de uma tradição alemã. Logo, começaram a ver uma IPA aqui outra ali. Agora, vocês estão começando a ver a influencia belga chegando também. Você olha para a cultura cervejeira americana.... talvez você volte a 1983, 1984, e demorou 20 anos para começar a ter influência belga. No Brasil, talvez três ou quatro anos. Então, você vê um encurtamento do tempo de desenvolvimento. Eu vejo gente como o Marcelo da Colorado, e outros caras do Brasil viajando, pegando ideias sobre produção de cerveja, voltando para o Brasil e fazendo coisas realmente interessantes. Então, agora eu penso que vocês tem uma base, que começou com a herança alemã, depois adicionou a inglesa, depois a americana, belga... Eu acho que isso é o mais interessante... Eu quero ver alguém fazer uma cerveja com caju. Eu quero ver alguém fazer uma cerveja que tenha uma característica brasileira distinta. Talvez trabalhar com os produtores de cachaça para fazer alguma coisa com o caldo da cana, ou alguma coisa com esses aromas. Olhe o que a Colorado está fazendo com o açúcar da rapadura... e coisas como essa, para desenvolver sabores brasileiro distintos, eu acho que isso vai ser bem legal.

Você trabalhava para a HBO antes de ser cervejeiro. Quando voltou da Inglaterra, depois de ter provado cervejas de tantos sabores diferentes, pensou que aquilo mudaria sua vida de tal forma?

Não foi assim tão rápido, porque eu tinha um bom trabalho, estava ganhando um bom dinheiro, as coisas estavam bem fáceis. Então, quando que você sai de fazer outra coisa para fabricar de cerveja, na maioria dos casos você descobre que as coisas vão de "serem fáceis" a "serem difíceis". Mas isso é uma das coisas que faz a indústria cervejeira tão apaixonada, é que as pessoas tenham desistido de muita coisa. Elas saíram de empregos que estavam pagando-lhes um bom dinheiro, que tinham um futuro claro, e ainda tinham que pagar por suas casas, seus carros, seus filhos e tudo mais. Mas eles disseram, ainda assim: “Eu estou deixando de ser bancário, estou deixando de ser advogado, vou ser cervejeiro em vez disso. Vou ser feliz”. E isso é a coisa inspiradora. É por isso que o movimento da cerveja artesanal é tão inspirador, porque as pessoas desistiram de muita coisa, para fazer o que eles vão fazer. E agora que eles estão aqui, dizem: "Não vou me submeter. Vou fazer o que eu quero".

E como foi, para você a mudança?

Bem, foi difícil em alguns aspectos. Especialmente porque ... é você deixar de estar confortável para ficar com muito calor e se queimar. É como trabalhar na cozinha. Não é glamouroso. Pode ser divertido, mas não é glamouroso. Tem mangueiras e canos... mas há partes românticas. E eu acho que você tem que sentir aquilo. Se não está no seu coração, você não vai fazer. Não vale a pena, eu quero dizer. Você vai trabalhar muito, muito duro. Muitas pessoas pensam: “Ah, olha, todo mundo está falando sobre fabricação de cerveja artesanal, e há esses caras novos”... e então você vai lá, e eles dizem: “Cara! É muito quente aqui, isso é muito difícil. Eu estou fazendo um monte de trabalho de encanador. Fui para a faculdade por quatro anos, tenho nível superior, tenho mestrado, porque estou fazendo todo o trabalho de encanador?” E algumas pessoas vão além e veem a beleza nisto tudo e algumas param no caminho e voltam. É o mesmo que em qualquer outra coisa. Mas eu acho que o que faz a cerveja artesanal são as pessoas, suas ideias, seus sonhos, suas inspirações. As pessoas vão dizer: 'Sabe, há vinte anos, viajei para um lugar especial, e fiquei com um monte de sabores na cabeça e agora estou traduzindo esse monte de sabor em todos os tipos de cerveja.

Tem planos para o Brasil?

Bem, ainda não ... Tenho certeza de que o Brasil tem planos para o o Brasil, mas nós ... Nosso plano para o Brasil é só para ... já estamos envolvidos lá há alguns anos, conhecemos um monte de cervejeiros há alguns anos, e nós só queremos ser parte da cena e nos divertirmos. Quero dizer, obviamente, o Brasil é um país que, por 20 anos, ou mais, as pessoas têm dito: 'Brasil é o próximo grande país', e levou um pouco de tempo ... não só na cerveja. Na economia, etc. E agora você começa a ver: ok, finalmente agora está acontecendo, o Brasil vai se tornar, de certa forma, uma potência mundial, e um lugar em que as pessoas têm que prestar atenção. As pessoas têm prestado atenção por um longo tempo para a música e algumas outras coisas, mas nunca prestaram atenção à cerveja brasileira. Anos atrás, tínhamos a Xingu, que supostamente era a cerveja brasileira, e só. E não há nada de errado nisso, mas a cerveja brasileira é muito mais interessante do que isso. Então, o que eu estou animado é em ver o que os novos cervejeiros brasileiros vão fazer, quais serão suas ideias. Eles podem ter influências de outros lugares, farão boas cervejas algo parecidas com as nossas, ou algo como as belgas, mas acho que vai acontecer no Brasil é que as pessoas vão fazer cervejas que são essencialmente brasileiras, e que é o que é vai ser emocionante. Quando ouço música brasileira, eu digo: Isso é música brasileira. Nós pegamos coisas de música brasileira, mas ainda parece com o Brasil. Eu quero provar algumas cervejas que tenham gosto de Brasil. E nos próximos anos, é o que você vai ver. E isso é o que mais me anima. É ótimo que as pessoas façam outras coisas, você sabe, mas ... ok, mas a minha pergunta para cervejeiros brasileiros é: eu posso ver suas habilidades e a cerveja tem um sabor agradável, agora ... quem é você? O que você tem para nos mostrar? Eles vão nos mostrar algumas coisas muito legais, tenho certeza disso.