quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Os monges trapistas do Brasil não fazem cerveja artesanal. Nem pretendem

Orações ocupam a maior parte dos dias dos monges. Foto: Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo


Os monges do mosteiro trapista de Nossa Senhora do Novo Mundo despertam às 2h45, antes de o sol despontar. Quinze minutos depois, já estão se dedicando ao "ofício divino", que lhes consumirá grande parte do dia. Vigília, orações, meditação, leituras, consomem as três primeiras horas, com uma pausa para o café da manhã. Às 6h, a missa e as ações de graças ocupam-lhes mais duas horas.

Estão prontos, espiritualmente, para um expediente diário de mais de quatro horas de trabalho. Às 12h30, pausa para o almoço, e os monges têm algum tempo livre, até que voltem ao trabalho ou se dediquem aos estudos teológicos, com aulas, reuniões, conferências. Depois do jantar, que começa por volta das 18h, mais alguns minutos de tempo livre.

Congregação reunida: origem em Genessee, Nova York
Foto: Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo
Às 19h30, depois de mais um pouco de dedicação ao "ofício divino", se recolhem aos seus aposentos, para repousar. O dia seguinte, afinal, não será muito diferente. A rotina é dura. Rezar e trabalhar. "Ora et labora", é o lema de São Bento.

O mosteiro de Nossa Senhora do Novo Mundo fica na pequena Campo do Tenente (PR). Começou com quatro monges vindos da Abadia Nossa Senhora de Genessee, em Nova York (EUA), que chegaram ao país em 1977 e se instalaram inicialmente, por seis anos, no município da Lapa (PR). Hoje, são 21.

Já o mosteiro Nossa Senhora de Boa Vista, em Rio Negrinho (SC), foi fundado em 2010 por oito monjas -  uma italiana, quatro chilenas e três brasileiras - que antes estavam instaladas em Quilvo, no Chile.

Os bebedores que sonham com uma autêntica cerveja trapista "brazuca", porém, vão se decepcionar. As probabilidades de algo assim acontecer parecem baixas. Os trapistas do Brasil não produzem cerveja e não estão muito interessados no assunto. Em entrevista por e-mail ao blog A Volta ao Mundo em 700 Cervejas, o irmão Gabriel Vecchi, do Nossa Senhora do Novo Mundo, diz que ambos os mosteiros seguem a produção do que já estavam acostumados em suas comunidades de origem - nenhuma delas cervejeira:

- Nenhuma das nossas comunidades trabalha com cerveja. Não há uma razão específica para a não-produção da bebida por parte dos dois mosteiros no Brasil. No momento em que uma comunidade é fundada, ela deve definir quais serão seus meios de subsistência. Isto geralmente é influenciado pelos meios já desenvolvidos pela comunidade fundadora. É mais seguro continuar num ramo conhecido do que lançar-se numa atividade totalmente nova.

E o que produzem, então?

Lavoura é uma das principais atividades do mosteiro
Foto: Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo
- Nós temos uma lavoura e também produzimos bolos, mel e biscoitos; as monjas, por sua vez, trabalham com chocolates e cartões - conta Irmão Gabriel.

O religioso demonstrou estar bem a par da reputação dos produtos trapistas:

- Como deve saber, vivemos sob a Regra de São Bento, cujo lema de "ora et labora" impregna todas as nossas atividades e é o verdadeiro segredo da qualidade e do zelo com os quais nossos produtos são desenvolvidos. Cada comunidade de nossa Ordem é autônoma e isto significa que ela deve buscar seus próprios meios de subsistência. Algumas se dedicam à produção de cervejas, outras à produção de queijos, chocolates, geleias, pães, bolos, mel, etc. Há muita diversidade no que concerne às atividades desenvolvidas - explica ele.

Despediu-se apontando - corretamente - a Bélgica e a Holanda como os principais locais de produção de cervejas entre os trapistas, e recomendando que entrássemos em contato com a abadia de Scourmont, responsável pela produção das Chimay.

ATUALIZAÇÃO ÀS 12h DE 11/9/13:

Logo após a publicação do post nas redes sociais, fomos informados por um leitor que dois monges que seriam trapistas, instalados na Serra da Cantareira, fizeram curso de produção artesanal na Sinnatrah Cervejaria Escola, e têm comprado insumos regularmente. Claro que de dois monges fazendo cervejas na panela para uma cerveja trapista com produção em alguma escala o devido selo de autenticação vai uma distância grande. Mas já é um alento. Há esperanças.

Regra de São Bento prevê hospedaria para visitantes e peregrinos. Foto: Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo


Primeiro mosteiro foi instalado em SP e durou 27 anos

Após uma aparição esporádica durante a ocupação francesa no Brasil Colônia, os trapistas se instalaram no Brasil já no começo do século 20. Vieram do mosteiro Sept Fons, na França, em 1903 e ficaram primeiro em um terreno em Cananeia, no litoral de São Paulo. Em vez da praia, preferiram as proximidades do Rio Paraíba do Sul e de um ribeirão no Tremembé, em uma antiga fazenda de café chamada Palmeiras.

O Mosteiro Bem Aventurada Maria, também chamado Maris Stela, ou Maristela, foi fundado no dia 13 de setembro de 1904, contou a repórter Ana Lúcia Viana no artigo Os trapistas em Tremembé (1904-1931) na edição número 281 do semanário Contato, em 2006. Além de recuperar a lavoura cafeeira, eles se dedicaram a cultivar cana de açúcar, juta, a criar gado holandês e a experimentar o plantio de arroz.

Apesar das diversas benfeitorias que deixaram, incluindo uma barragem e uma pequena usina elétrica, os trapistas não conseguiram arrebanhar os fiéis de que tanto necessitavam para manter o mosteiro. Discretamente, começaram a retornar para a França, em setembro de 1927. Os últimos partiram em março de 1931. Segundo o site da Ordem Cisterciense da Estrita Observância (OCSO, na sigla em francês), eles foram para a abadia de Notre Dame de Orval. Ainda segundo Ana Lúcia Viana, somente um, o irmão Leonard Van Hier, permaneceu; ele morreu em 1948.

Um comentário:

  1. Olá, amigos! Contribuímos para o assunto, comunicando que já há monges no Rio Grande do Sul que fazem cerveja há alguns anos. Acessem link: http://vejasp.abril.com.br/blogs/cervejas/2014/02/monges-gauchos-cerveja-na-panela/
    Grande abraço,
    Mosteiro de Nazaré.

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